Por que uma bicicleta para rodar na cidade ou em estradas não seria capaz de enfrentar terrenos acidentados, lama e pedras em trilhas off-road? Foi isso que pensaram alguns amigo da Califórnia (EUA) na década de 70, quando decidiram adaptar suas Bikes para encarar as montanhas com manobras prá lá de radicais.
Charlie Kelly, Joe Breeze e Gary Fisher são os personagens desta incrível história que tornou o Mountain Bike um dos esportes mais praticados do mundo. 
A história começa com a utilização das bicicletas como meio de transporte comum nas cidades. Embora nas décadas de 50 e 60 algumas pessoas já utilizassem as bicicletas para trajetos off-roads, o uso era simplesmente comum. Alguns jovens dessa época já usavam as bicicletas para competições em estradas, é o caso dos incríveis caras acima. Gary Fischer por exemplo, começou a participar de competições aos 12 anos de idade em 1963. Em 1968 foi suspenso das provas por causa de seus cabelos compridos.

Gary Fischer competindo na amateur bicycle league of américa em 1963

Assim como Fischer, Joe Breeze também participava de competições de velocidade em estradas, e é dele que vem uma das maiores contribuições para o Mountain Bike: a adaptação das bikes de cidades para as bikes de montanhas.
O gosto por bicicletas veio de seu pai, Bill Breeze, um mecânico proprietário de um centro automotivo em Sausalito, na Califórnia, que utilizava a bicicleta como meio de transporte diário. Incentivado por seu pai e ainda adolescente na década de 60, Joe Breeze começou a divulgar o ciclismo praticando percursos de centenas de quilômetros para mostrar às pessoas o quão longe e rápido uma bicicleta poderia ir. No início dos anos 70, Breeze já participava de competições em estradas e começou a promover competições de ciclismo em estradas off-road, no Monte Tamalpais, ao Norte da Cafifórnia na cidade de Mill Valley, onde se criou e cursou engenharia e desenho arquitetônico por 4 anos. Na época, as bicicletas tinhas quadros muito pesados, aros e pneus finos e guidões curvos, incapazes de enfrentar as descidas radicais dos terrenos acidentados. Para promover uma mudança nas características das bicicletas da época, Breeze e seu amigo Marc Vendetti começaram a procurar bicicletas com quadros mais resistentes e com pneus mais grossos. Foi aí que encontraram velhos modelos da fabricante Schwinn construídos entre 1937 e 1944. Incentivado por Vendetti, Breeze comprou uma dessas por US$ 5 (cinco dólares) , desmontou todos os componentes e os remontou criando uma bicicleta capaz de descer ladeira abaixo. As modificações eram feitas na oficina do seu seu pai.


O ciclismo off-road de montanha ou “ciclocross” estava crescendo e recebendo novos adeptos a cada dia. A aventura consistia em subir as montanhas e de lá empreender velocidade e manobras radicais ladeira abaixo.
Já em 1976 Breeze começou a participar de uma competição chamada “Repack” que acontecia nos arredores de FairFax, na Califórnia. Estas provas eram denominadas de downhill que literalmente significaria ” descer ladeira abaixo em estrada off-road”. Joe reuniu os maiores competidores da época para formar sua equipe. Juntaram-se a ele então : Gary Fischer e Charlie Kelly, entre outros amigos que também praticavam ciclocross.
Na época as bicicletas mais utilizadas eram as da marca “Excelsior ” Schwinn vendidas pela famosa BF Goodrich, que não possuíam todas as características para enfrentar as provas off-road. Os quadros não aceitavam centros mais amplos, e os garfos não eram suficientes para flexionar com os impactos. Alguns praticantes tentavam mudanças adaptando freios a tambor na rodas dianteira e traseira, kits de pedaleiras e selins, mas nada disso adiantava porque a velocidade e os impactos pareciam fazer as bikes pesarem 2 ou 3 vezes mais. Uma bicicleta na época custava em média US$ 400 (quatrocentos dólares)
Charlie Kelly chegava a quebrar um quadro a cada 2 meses e seria mais barato para ele encomendar uma bicicleta montada sob medida ao invés de utilizar as famosas Schwinn Excelsior adaptadas. Pediu então ao amigo Craig Mitchell que construísse um novo quadro para sua bike. Era um quadro feito com tubos de cromo e molibdênio (um metal de transição aplicado em ligas metálicas de aço para dar resistência e evitar corrosões). Esse quadro pesava de 4 a 5 quilos a menos do que os outros, e seria a base para os quadros fabricados por Joe Breeze, um ano depois.

Entretanto, até que as bikes atingissem mais um estágio de modernização, a criada por Mitchell já possuía características capazes de empreender mais velocidade, contudo sem um sistema eficiente de aerodinâmica, o que proporcionava acidentes espetaculares. Por conta disso, Charlie Kelly foi um dos primeiros pilotos de ciclocross a utilizar jaquetas – chamadas de oversize – , luvas, joelheiras e cotoveleiras.
Não satisfeito com o quadro de Mitchell , em 1977 Charlie Kelly resolver explorar os conhecimentos de engenharia e designer de Joe Breeze e pediu a ele a criação de uma nova bike, mais leve, mais resistente, segura e ágil. Este projeto envolvia a adaptação de dois tubos laterais simétricos ao quadro da bicicleta, que seriam suficientes para dar robustez aos impactos em grandes velocidades. Gary Fischer participou do projeto adaptando novas engrenagens, marchas com trocas intercambiáveis no guidão e sistemas de amortecedores nos garfos e rodas.


Tom Ritchey na produção dos quadros
O projeto deu tão certo que usando a bicicleta criada, venceram a competição Repack no mesmo ano.
Com o sucesso vieram os pedidos de encomenda de vários outros praticantes de Mountain Bike, como os da região de Marin County também na Califórnia, um deles chamado Tom Ritchey que compartilhando suas experiências com Fischer viria a se tornar um dos maiores produtores de quadros de bicicletas e fornecedor da Fischer Mountain Bike, em sociedade composta pelo próprio Gary Fischer e seu amigo Charlie Kelly.

1a. sede da empresa Fischer Mountain Bike dos sócios Gary Fischer e Charlie Kelly
A Fischer cresceu a passos largos e difundiu o Mountain Bike pelo Mundo. Atualmente a empresa tem uma parceria com a TREK uma das maiores fabricantes de bicicletas do planeta.
Gary Fischer ao longo dos últimos anos contribui pessoalmente para a explosão do esporte no mundo. Juntamente com Joe Breeze fundou a National Off-Road Bicycle Association (NORBA). Desenvolveu a Procaliber em conjunto com a Klunker, que foi considerada uma das dez melhores mountain bikes de todos os tempos, e foi incluído como menção honrosa no Mountain Bike Hall of Fame.
Em 2002 a Fischer realiza uma parceria com a montadora Subaru para produção da Subaru-Gary Fischer Mountain Bike Team, que vira um sucesso de vendas em todo o mundo.
Com o sucesso de seus quadros para bikes, Joe Breeze fundou a empresa que leva seu nome como marca – a Breezer – e passou a oferecer projetos como meio de transporte alternativo para grandes problemas de circulação em cidades, acreditando na bicicleta como meio de transporte diário contra o sedentarismo, a poluição, congestionamentos, entre outros. Iniciou então um trabalho junto a organizações públicas e privadas para incentivar a bike como meio de transporte e projetos urbanos para implantação de ciclovias. Em 2008 vendeu sua marca para uma empresa da Pensilvânia, para a qual se dedica-se na elaboração de designers de bicicletas que são lançadas e comercializadas em todo o mundo.
A competição Repack que teve início com Charlie Kelly no início da década de 70, teve sua última prova no ano de 1979 com a gravação para um programa de TV de San Francisco, Califórnia. Em 1983 e 1984 mais duas corridas foram feitas para reviver a década de 70. O esporte seria ainda integrado como modalidade nos jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996.
Em 2013 um mosaico foi instalado no centro de Fairfax como tributo ao berço do Mountain Bike, que deixou historicamente um acervo sensacional de imagens do que é hoje um dos mais praticados esportes do mundo.



** as imagens utilizadas foram extraídas de: “A Film About Mountain Bike History” – disponível em youtube.com – e dos sites: Charlie Kelly´s Website / Trekbikers.com / Klunkers.com – (reservados todos os direitos autorais).















