Quando eu resolvi montar este site, queria reunir as mais inusitadas histórias dos passeios com amigos, e talvez eu tenha ganho um bom presente neste sentido, com o passeio que realizamos no último dia 19/10/13 na Serra do Japi.
O que poderia ser apenas o relato de uma caminhada de 10 horas mostrando paisagens lindas da serra, tornou-se a narrativa de uma epopeia.
Na definição do dicionário – porto editora- epopeia é: “Poema narrativo de grande dimensão em que se celebra a ação grandiosa e heroica de um herói com qualidades excepcionais”.
O herói da nossa história chama-se Hélio, um Japonês prá lá de estranho e gente boa, que conhecemos logo no início da viagem, e é assim que começa nossa história.
Era véspera de uma celebração religiosa na cidade de Pirapora, e neste dia diversas comitivas de cavaleiros se dirigem para lá utilizando um trecho de estrada que parte da cidade de Jundiaí atravessando a Serra do Japi. Lá pelas 6:30hs já estávamos nos preparando para seguir viagem iniciando de um lugar chamado Santa Clara, depois de um cafezinho no bar da simpática Claudete.
Nosso destino era um local chamado Capão da Onça, onde as comitivas se encontram vindas de várias localidades para seguirem então a Pirapora. Ao longo de 38 quilômetros são muitos os pesqueiros e bares existentes, e foi logo no primeiro que conhecemos o nosso “herói”.

Pesqueiro Santa Bárbara, 1ª parada onde conhecemos nosso “herói” japonês
Ao chegarmos no pesqueiro encontramos um japonês que ouvia alguns clássicos do rock metal em seu mp3: Black Sabbath, Jethro Tull, AC/DC entre outros.
Logo de cara, seria estranho ver um Japonês curtindo Metal, mas o estilo do Hélio não combinaria com nenhum outro tipo de música: estatura baixa, magrinho, aparência “hippie” estilo “paz e amor”, barba estilo monge indiano, cabelos ralos, secos e cumpridos abaixo dos ombros, chinelos de dedo. Esse era o Hélio, sujeito que ao longo da nossa viagem ganhou vários apelidos dos que passaram por nós; Japa, Jaspion, China, Yoko Ono, Sr. Myiagi, entre tantos outros que para nós resumia-se apenas em: “Hélio” – e sua epopeia para chegar em Pirapora.
Digo epopeia em função do teor alcoólico do Hélio naquele momento. Caminhar por mais de 10 horas não seria tarefa fácil, e quando ele resolveu vir com a gente, fiquei na dúvida se seria uma epopeia para ele ou para nós!
Bom.. seguimos viagem e com nós veio o Japa e o grito de curtição que ele repetia antes ou depois de falar alguma coisa: uHuuuuu! !.
Em sua mochila apenas uma troca de roupa e um velho cobertor.
“- E aí Hélio, o que você faz da vida? ” – perguntamos.
“- Eu tenho licenciatura de física na USP e faço doutorado na UNICAMP – Uhuuuuu !” – respondeu ele.
Depois de alguns quilômetros começamos a perceber que o Hélio era figura conhecida na região, abraços de cá, uHuuuuu ! abraços de lá; – “e aí Japa, te conheço desde pequenininho ” cara!” , – “Oi Japa, faz 20 anos que eu faço esse trecho e te encontro, você tá vivo ainda ?” , e por aí vão os calorosos cumprimentos dos antigos conhecidos, que por sinal não eram poucos.
Andamos por alguns quilômetros e começamos a ser alcançados por grupos de cavaleiros que avistavam o Hélio e duvidavam que ele pudesse seguir a viagem.

Essas comitivas levam muitas bebidas e ninguém fica sem uma cervejinha na mão. Quando o pessoal passava pelo Hélio já ia dando mais uma pra ele beber. Desse jeito ele não chegaria mesmo. Dar cerveja para o Japa era o mesmo que dar Kryptonita para o Superman.

À medida em que nós prosseguíamos, as vezes olhávamos para trás e não víamos o Hélio. “Ué? Será que ele desmaiou?” Seria uma traição do nosso grupo deixa-lo para trás.
E lá vem o Wagnão resgatando o nosso “herói”

Ao longo da viagem fizemos várias paradas: no Ricardo (Paiol Velho), no pesqueiro do Fernando, na barraca dos Corinthianos. Em cada parada além de água fresca para abastecer os cantis, mais um tanto de cerveja pra não perder o costume! O Hélio carregava na bolsa lateral da mochila uma garrafinha plástica com uma bebida que ele dizia ser sua fonte de energia : “caldo de cana com abacaxi”. Vez em quando ele dava um golinho e pé na estrada.
Nesta parte da viagem já tínhamos andado cerca de três horas e meia entre trechos de terra e asfalto, e os ritmos entre nós começaram a ficar diferentes: o Mascarenhas e o Ademar bem na frente, eu o Elton e o Wagner atrás, e o Hélio……….. Xiiii!!! cadê o Hélio????
Nosso grupo se dispersou e perdemos o contato. Eu o Elton e o Wagner seguimos em direção ao Capão da Onça e chegando por lá encontramos centenas de pessoas ao meio de muitos cavalos, charretes, caminhões, pick-up´s e treilers.

Depois de vários pastéis e espetinhos, encontramos o Ademar e o Mascarenhas. Nossa ideia era concluir a viagem neste ponto, ligando para alguém nos buscar de carro, entretanto não havia sinal de telefone e resolvemos seguir o caminho até Pirapora para ligar da cidade.
Vocês devem estar se perguntando sobre o Hélio não é? Considerando o tempo em que ele se separou de nós ainda na estrada, até o tempo em que permanecemos no Capão da Onça, deve ter passado aproximadamente 2 horas e pela quantidade de pessoas que havia, seria impossível achá-lo depois de tanto tempo. Era o fim da Epopeia.
Tomamos o rumo de Pirapora e depois de mais ou menos 40 minutos entrando num trecho de asfalto tivemos uma surpresa: Uhuuuu ! lá estava o Japa seguindo sozinho e “mais prá lá do que prá cá” !
Não. Não foi coincidência. Nosso destino estava traçado com o do Japa. A Missão ainda não estava cumprida.
Deste ponto caminhamos por mais três horas e novamente muitos paravam para cumprimentar o Japa. Era a sensação da galera. O Léo ( ciclista de Jundiaí ) foi um desses amigos que não deixou de parar pra uma foto. Ele citou que em certa ocasião encontrou com o Hélio com alguns amigos e eles estavam resolvendo problemas de matemática. Será que o Hélio conseguiria calcular quantas cervejas tinha tomado nesse dia?

O Hélio, o Leo (centro) e eu.
Em função desta parada nos separamos do grupo. Eu o Elton e o Japa seguimos e mais próximos da cidade voltamos a encontrar o grupo em outro ponto de parada com centenas de pessoas.
De lá seguimos o caminho, e em função do calor que fazia, o ritmo começou a ficar evidente. Perdemos o Japa e Wagnão. Paramos e ficamos um grande tempo esperando para ver se eles chegavam até nós. E nada.
Mas quem em sã consciência negaria carona para um Herói atrasado e seu fiel escudeiro?

Além dos lanches e cervejas que essa turma aí distribuiu para os dois.
Alguns metros à frente o Hélio encontrou alguns amigos e resolver ficar por lá. ( na verdade nós nem sabemos se ele tinha condições de seguir viagem ). Foi a última vez que o vimos, mas ficamos satisfeitos porque estávamos quase na cidade. Missão cumprida depois de 10 horas na companhia desse cara gente boa. Uma pessoa Incrível que nos acompanhou por um lugar incrível.

(da esq. p/ dir) Mascarenhas, Wagnão, Hélio, Elton, Ademar e Eu













Cara que legal,quantas vezes perdeu esse japa
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Umas 4 vezes ! e o engraçado foi isso. Sempre acontecia algo para ele se juntar ao grupo novamente.
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Muito bacana, povo doido
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